Muito obrigado pela pergunta, por sinal uma das mais persistentes que temos. Sempre tentamos responder de modo claro e resumido, para não complicarmos mais ainda aquilo que já parece ser complicado.
A origem do homem, da natureza, criação etc., pode ser resumida da seguinte forma: o Budismo, sim, acredita numa Única Divindade Suprema, que chamamos de Buda Primordial e o despertamos dentro de nós através da oração e mantra sagrado, Namumyouhourenguekyou (causa, essência e semente da iluminação).
A partir deste fato, podemos entender que, se o Buda Primordial existe dentro de nós, basta questioná-lo que saberemos a resposta de tudo que desejamos. Em outras palavras, nunca aparecerá alguém para responder como aconteceu isso, aquilo, o que deve fazer pela sua existência, como o universo surgiu etc.
Por mais que pareça impossível, ainda assim, se alguém aparecer dizendo todas as verdades sobre o universo e você não estiver despertado o Buda Primordial dentro de si, não terá como compreender. Simplesmente ficará sem saber e não entenderá nada. Por outro lado se estiver desperto o Buda Primordial dentro de si, não precisará que alguém apareça para lhe dizer o que você mesmo terá capacidade para compreender e principalmente agir.
Quando atingir (receber pela fé) a iluminação, despertará automaticamente para tudo isso que está na nossa cara e não somos capazes de compreender. Tal como, quando se vê a fumaça presente o fogo, quando se recebe a iluminação desperta para as causas e respostas que o universo tem.
O Buda Primordial, não é uma personalidade, apesar de costumeiramente ser personiticado por muitas pessoas. É uma energia e esssência, que existe mesmo em se tratando do mais extremo vácuo ou aparente vazio que o universo poderia ter sido antes de tudo que existe se apresentar na forma em que se apresenta. Por isso o Buda Primordial não nasceu, não tem começo, portanto, também não tem fim. Nossa existência cósmica também, o budismo primordial parte deste pressuposto básico.
Nunca poderemos compreender algo tão complexo e universal através da somatória de tão poucos fragmentos (conhecimento que temos). Um mínimo detalhe nos desviaria da compreensão completa e correta (universal).
Tudo que se cria, acaba se descriando, tudo que sobe, desce, tudo que nasce, morre. Por isso, nem mesmo veneramos o Buda que nasceu e partiu (Buda Transitório). Primordialmente interpretando, de fato, não morremos, simplesmente regressamos ao nosso estado primordial quando conduzidos pela causa, essência e semente da iluminação. Caso contrário seguiremos apenas o destino que criamos a partir das causas que geramos.
Veneramos a verdadeira e única identidade divina de Buda como sendo o Buda Primordial, que se manifestou para nos mostrar o caminho e a possibilidade de nos iluminarmos e reintegrarmos ao interior do Buda Primordial, a natureza única de todo o universo.
A própria ciência cada vez mais se aproxima desta forma de compreensão, o fato é que para se existir não é preciso nascer, nem se criar.
Tudo que existe sempre existiu, apenas tomou a forma que atualmente têm e que nós achamos ser a forma real das coisas. Todas essa formas são apenas formas transitórias da realidade formatada e fragmentada pela nossa visão imperfeita (parcial) e incorreta (unilateral).
Não podemos avaliar, nem definir nada a partir de algo transitório e impermanente. Que num dia é uma coisa e no dia seguinte é outra, ou que dura só por alguns anos, tal como exemplo a vida do nosso corpo físico.
No budismo, olhamos para o homem, estaremos observando através da sua alma que é eterna por ser una ao Buda Primordial. Portanto, por sermos, a partir da alma, uma partícula do Buda Primordial, nunca fomos criados, sempre existimos e existiremos de forma una e única. O objetivo da prática budista é concretizar esta unicidade e retomar mutuamente esta natureza original a partir da prática correta da fé e exercício da compaixão.
O acontecimento dessa "re-união" caracterizará o nosso renascimento na Terra Pura de Buda, mundo principalmente existente dentro de cada um de nós. Não meramente no modo figurado como muitos insistem em interpretar.
Poderia fazer várias outras abordagens, mas por hoje é só. Também destaco que esta pode ser uma conversa sem fim e objetivo.
O próprio Buda, evitou este tipo de pergunta ensinando que somente quando estivermos prontos de forma mental, experimental e espiritual é que poderemos compreender isso. Ou seja, é exclusividade de um iluminado e só compreenderemos isso quando fizermos parte deste estado e mundo iluminado.
Porém, independente de atingir um estado iluminado (o que não podemos esperar) podemos agir tal como um iluminado, mesmo sem ter a mesma compreensão do mesmo. É a virtude do fazer, pela fé, que seremos conduzidos, por fim, ao entendimento interior disso. E mesmo após compreender tudo o que queremos, ainda assim, não teremos como exteriorizar, pois não existem palavras e teorias suficientes para explicar o mundo do Buda Primordial.
Muito obrigado.
Fontes: Revista Lótus nº 46 Pg 11